Com a autorização da revista internacional de improviso Status, Luana Proença e Davi Salazar traduzem e gravam em português o conteúdo mensal da revista.
SIM, existe uma revista mensal sobre Impro que questiona e valoriza o que fazemos, E seu conteúdo é disponibilizado em português AQUI por escrito, e em áudio em nosso PODCAST no Spotify: Revista Status - PT .
A revista STATUS é publicada mensalmente e virtualmente em espanhol, inglês, italiano e francês. Informações e assinaturas: https://www.statusrevista.com/.
OPINIÃO
A INFANTILIZAÇÃO DA IMPROVISAÇÃO
Por Feña Ortalli
Há uma linha tênue entre incentivar as pessoas a brincarem como faziam quando eram crianças e tratá-las como se fossem realmente crianças.
Muitas vezes sinto essa infantilização direcionada tanto à artistas em um espetáculo de impro quanto ao próprio público.
Como se “brincar” estivesse inerente e inevitavelmente ligado a “se comportar” como crianças.
Discursos simples. Histórias previsíveis. Personagens maniqueístas. Figurinos coloridos. Uma moral final.
Os mesmos ingredientes de qualquer espetáculo infantil típico — tanto na forma quanto no conteúdo.
Infantilizar é minimizar, subestimar e colocar em questão a autonomia, a dignidade e a capacidade de agir das pessoas. E se fazer isso com crianças já é terrível (sem falar em fazê-lo com pessoas adultas mais velhas), fazer isso com a impro é ajudar a cavar nossa própria cova.
Essa infantilização está profundamente presente em nossa sociedade e se manifesta visivelmente em contextos de racismo, sexismo, etarismo e capacitismo
Embora a estratégia de convencer pessoas adultas a brincar como faziam quando eram crianças seja a maneira mais comum de ajudar iniciantes a superar inibições e medos ao começarem a improvisar, ela se torna contraproducente se quisermos aprofundar a técnica e usá-la como meio de expressão artística. Brincar como crianças é um meio, não um fim.
Não há nada de errado em brincar e recuperar um pouco do nosso espírito infantil; mas a partir de nossa perspectiva, experiência e conhecimento adulto. A partir de nossos problemas, conflitos e realidades. A partir de nossos desejos, sonhos e anseios.
Há algum tempo, publiquei um texto intitulado “Brinque como uma criança”. Hoje, retiro o que disse e encorajo você a “brincar como uma pessoa adulta”.
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BIO
MURASAKI SHIKIBU
Por Feña Ortalli
Murasaki Shikibu, ativa no início do século XI na corte imperial japonesa, é considerada uma das figuras literárias mais influentes da história mundial. Seu legado repousa principalmente em “Genji Monogatari” (“O Conto de Genji”), uma obra monumental que não apenas inaugura novas formas de ficção narrativa, mas também estabelece um modelo de profundidade psicológica e sutileza estilística sem precedentes na literatura mundial.
Sua escrita é caracterizada por uma extraordinária capacidade de observar e traduzir a complexidade emocional humana. Em “Genji”, Murasaki desenvolve personagens que evoluem, hesitam, se contradizem e se transformam, antecipando técnicas narrativas que, séculos mais tarde, seriam consideradas modernas: introspecção detalhada, ambiguidade moral, a construção de atmosferas sensoriais e o uso de múltiplas perspectivas.
Além de sua obra principal, Murasaki escreveu um diário e uma série de poemas que revelam seu domínio do waka, a refinada forma poética da corte. Esses textos complementam seu projeto literário: uma exploração constante da sensibilidade, da impermanência e da vida emocional como material estético. Seu estilo combina precisão linguística, ironia sutil e uma atenção meticulosa às nuances sociais e afetivas que definiam a vida na corte.
A importância de Murasaki Shikibu reside também em sua capacidade de expandir os limites da ficção. Com “Genji”, ela introduziu uma estrutura narrativa extensa e coesa, articulada por meio de episódios interligados, uma forma que muitos estudiosos consideram precursora do romance moderno. Sua influência continua a ressoar na literatura, no teatro e nas artes visuais, onde sua abordagem às personagens e à profundidade emocional permanece uma referência para criadores em todo o mundo.
Acredita-se que Murasaki Shikibu tenha falecido por volta de 1014–1025, provavelmente em Kyoto, embora as circunstâncias exatas de sua morte permaneçam incertas. O que permanece claro é a magnitude de sua contribuição: uma obra que remodelou a arte narrativa e continua a iluminar as possibilidades da narrativa.
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ENTREVISTA
NATALI ANNA
Por Feña Ortalli
“A impro me tornou mais corajosa”
Conheci Natali há alguns anos em um festival em Granada e fiquei impressionado com aquela combinação muito rara de habilidades que lhe permite passar das cenas mais dramáticas para as personagens mais engraçadas com a mesma autenticidade. Durante esta entrevista —realizada durante uma viagem de trem de Valência a Madri— ela nos conta como o teatro improvisado e o tradicional deveriam se unir com mais frequência.
O que você mais gosta na improvisação?
Adoro o quanto é colaborativo. Isso me obriga a estar no momento e a ouvir. Acho que a impro me tornou uma ouvinte melhor.
Existem estilos ou formatos específicos que lhe interessam mais quando você está no palco?
Sim. No momento, estou numa fase em que prefiro muito mais a improvisação dramática e os espetáculos de formato longo — aquelas improvisações em que você pode levar o tempo que quiser e a história importa mais do que risadas fáceis ou a pressão de criar algo rapidamente para obter um resultado.
Que habilidades você acha que devem ser desenvolvidas para alcançar esse tipo de improvisação?
Acho que é muito importante assistir a muitos espetáculos teatrais, mergulhar nesse mundo e, na prática, trabalhar a paciência, as estruturas de formato longo, estudar dramaturgia e, acima de tudo, a conexão e a escuta com suas parcerias de cena
Que tipos de formatos não te motivam tanto, mesmo sabendo que funcionam?
Hoje em dia, não escolho fazer tantos jogos de Catch ou de formato curto, mas de vez em quando acho que eles são divertidos, e quando surgem oportunidades, eu aproveito e me divirto. Agora eu os encaro de maneira diferente, priorizando a história e a conexão. A velocidade que essas formas exigem é mais difícil para mim, e eu não busco risadas fáceis. Acho que a comédia surge naturalmente de qualquer maneira, então não há necessidade de forçá-la.
O que você menos gosta de ver acontecer no palco, seja como artista ou como membro da plateia?
Clichês. E nunca quero que ninguém no palco se sinta desconfortável ou ofendido. Existem outras maneiras de criar em que ninguém fica mal na foto.
Vamos voltar ao início. Como você começou na improvisação?
A primeira vez que vi impro foi através da Paloma Córdoba. Fui a um dos espetáculos dela, e ela uma vez nos deu uma aula experimental quando estávamos estudando artes dramáticas. Foi aí que pensei: “Gosto disso”, embora parecesse distante. Mais tarde, tentei novamente em Los Angeles com o Groundlings.
Mais recentemente, levei isso a sério depois de anos de ansiedade severa e medo do palco durante uma peça com roteiro. Cheguei a um ponto em que disse: “Não posso deixar isso me controlar”. Perguntei a mim mesma o que mais me assustava no palco, e era a improvisação. Durante a pandemia, fiz cursos online e, uma vez na Espanha, fiz um curso com o Rafa Villena — minha mãe teve que me levar de carro até a primeira aula porque eu estava morrendo de medo. Agora posso dizer que a impro ajudou muito minha saúde mental e me tornou mais corajosa.
E o que havia na impro que te assustava tanto?
Minha experiência no teatro sempre envolveu um roteiro para me apoiar. Não ter nada a que me agarrar parecia um precipício. Agora vejo isso de maneira oposta: a impro é uma rede de segurança na qual sempre posso me apoiar. Mesmo no teatro com roteiro, não tenho mais medo de esquecer falas porque sei que a impro está lá. Graças a ela, ouso dizer que sou uma atriz melhor, com ferramentas que me ajudam a atuar, fazer testes e criar.
E vice-versa? Ser atriz lhe dá ferramentas para ser uma melhor improvisadora?
Com certeza. A impro é usada no teatro com roteiro para ensaios e exploração, mas, como atriz, também desenvolvi consciência espacial, composição, capacidade de ouvir e trabalho momento a momento. Além disso, ler tanto sobre teatro ajuda. São ferramentas compartilhadas entre os dois mundos.
Nos últimos anos, você entrou no cenário dos festivais internacionais. Como foram essas primeiras experiências viajando pela Europa?
Tive um belo batismo na impro internacional no Festival Irreverente de Lisboa. Foi mágico: me conectei profundamente com uma equipe e um grupo de pessoas improvisadoras, aprendi muito e me diverti imensamente. Entendo o que vocês, da impro, querem dizer sobre a família que isso cria — conexões lindas e muito unidas. É viciante. Quero mais.
Começar a viajar para festivais também significa criar workshops. Quais são aqueles que você quer levar para o exterior, ou quais ferramentas você gosta de compartilhar?
Trago a perspectiva de uma atriz a partir da interpretação de roteiros. Estou em constante evolução e aprendizado, por isso adoro pesquisar e compartilhar por meio de oficinas — a gente aprende ainda mais ao ensiná-las. Até agora, tenho me concentrado em oficinas muito físicas, porque sou apaixonada pelo corpo e pela impro a partir da fisicalidade. Também trabalho com aspectos mais intelectuais, como subtexto, segredos e intenções. Sinto que mal comecei; ainda há muito a ser explorado.
Como surgiu a ideia para “Can We Have a Word?”?
Curiosamente, tudo começou num trem, tal como esta entrevista, a partir de um jogo de palavras nascido do tédio. Também surgiu de três pessoas improvisadoras que são como família, colaborando e partilhando interesses comuns, como encenação e jogos de linguagem. Foi concebido para festivais, mas acabou por se tornar uma turnê nacional. Ainda assim, espero que tenha uma longa vida
O que você mais gosta nesse espetáculo?
Seu lado colaborativo, construído a partir de diferentes ângulos — não apenas da pessoa improvisadora, mas da visão externa de quem escreve as direções de palco. Adoro suas camadas: improvisar a partir do texto, da fisicalidade e dos jogos verbais, todas as reviravoltas nas palavras, letras e significados. E o fato de que ainda está evoluindo, crescendo e mudando.
Que territórios você acha que a impro ainda tem para explorar?
Adoraria que o teatro com roteiro e a impro andassem mais de mãos dadas. Em alguns países, eles ainda são vistos como mundos separados, mas estão profundamente conectados. Mais pontes entre eles permitiriam que se nutrissem mutuamente. Também gostaria de ver um crescimento em direção à impro de formato longo e impro dramática.
Você acha que, se a impro seguir esse caminho, poderá ganhar reconhecimento do mundo do teatro com texto?
Acho que sim. Infelizmente, o drama costuma ser mais valorizado do que a comédia, visto como mais sério ou profissional. Isso me incomoda porque sou um grande fã de comédia.
O que você tem planejado a curto e longo prazo?
Adoraria explorar mais o teatro físico, na impro e além dela. Já participei de espetáculos como no Irreverente e, agora, com Sole Cardigni e Adriá Lerma, estreamos um em Roma partindo da fisicalidade para construir personagens e histórias. Quero aprender com todos os profissionais talentosos que dominam essa arte. Além disso, continuar promovendo o formato longo e novos gêneros — tendemos a repetir os mesmos, mas há infinitos outros para explorar por muitos anos.
E no futuro distante?
Continuar viajando pelo mundo fazendo impro e conhecendo pessoas. Viajar para a Ásia para fazer impro seria incrível.
Se você pudesse roubar um superpoder de uma pessoa improvisadora que conhece, qual e de quem?
De você. Todo o seu conhecimento dramático. Eu pegaria um pedaço do seu cérebro.
Por que você faz improvisação?
Porque me deixa mais feliz. Porque conheci pessoas que se tornaram família. Porque me tornou mais corajosa, me ajuda a enfrentar medos e me ensinou a navegar melhor pela vida. Como atriz profissional, isso me deu muito: a impro permite que você viva milhões de vidas, escolha muitas delas e explore coisas para as quais o teatro com roteiro não tem tempo. Além disso, me permite continuar treinando ferramentas de atuação e me aventurar em novas áreas que eu não havia explorado antes.
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GENÉTICAS
CIEN AÑOS DE…
por Soledad Cardigni
seção coordenada por Luana Proença (luanamproenca@gmail.com )
Algumas das práticas pedagógicas comuns na América Latina que sempre me inspiraram em Teatro são as chamadas Desmontagens Cênicas ou os estudos da Genética Teatral. Uma abertura dos processos de criações onde eles são “desfeitos” parte a parte para que possamos ver como se deu a junção daquela obra. Assim, todos os meses eu vou dar espaço para grupos e artistas abrirem suas criações para uma partilha inspiradora. Se você quiser partilhar sobre o seu processo, entre em contato comigo, Luana Proença.
Poderoso. Foi isso que senti ao assistir a “Cien Años de…” (“Cem anos de…”) no IRREVERENTE – Festival Internacional de Improviso de Lisboa em 2025. Mulheres no palco interpretando gerações de mulheres, a família, suas relações. Fazia sentido que Soledad Cardigni criasse algo à sua imagem: poderoso. Uma bela referência à obra de Gabriel García Márquez à sua maneira. E, ao ler o artigo, compreendi que isso veio de 100 anos de algo que cresceu em sua família, e isso é ela também, isso somos nós também.
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“Cien años de…” (“Cem Anos de…”)
“O problema é que nós nos permitimos tornar-nos parte da história do assassino, e é por isso que podemos acabar com ele. É por isso que, com um certo senso de urgência, busco a natureza, o tema, as palavras da outra história, a história não contada, a história da vida.” (Úrsula K. Le Guin, “A Teoria da Bolsa de Ficção”)
“Cien años de…” é uma peça de improvisação teatral inspirada no romance de Gabriel García Márquez, “Cem Anos de Solidão”. O público completa a frase “cem anos de…” com uma única palavra, e isso se torna o tema (karma?) que permeia três gerações de mulheres e seus relacionamentos.
Este espetáculo teve origem no “Buena Impro Social Club”, uma série semanal de improv co-criada com Valeria Stilman e produzida por Leandro Cáceres, na qual estreávamos um formato diferente todas as terças-feiras. Numa terça-feira a Vale inventava, noutra eu, e assim por diante, alternando por vários meses. No turbilhão desse exercício criativo — que recomendo vivamente —, “Cien años de…” nasceu e estreou em 12 de março de 2019.
É justamente por causa desse turbilhão que não consigo me lembrar exatamente como tudo surgiu; naquela época, pensar em formatos era algo muito natural. Mas lembro que a primeira coisa que me veio à mente foi a imagem das atrizes posando em uma foto de família como quadro de abertura e encerramento da peça.
Uma porta que se abre para revelar aquele mundo tão visível e, ao mesmo tempo, tão oculto… como sempre que minha irmã, minha mãe, minha sobrinha, meu irmão e eu tiramos o pó de velhas fotos de família e tentamos adivinhar onde estavam, o que estavam fazendo, em que fase da vida se encontravam (já moravam em Buenos Aires?) e até quem são (apenas para esquecer até a próxima vez que virmos a foto).
Olhar para fotos nos mergulha em um tempo de suposições, histórias e narrativas.
Durante toda a minha vida, ouvi minha avó paterna dizer que adoraria ter sido dançarina, uma daquelas que tocam castanholas. Ela dizia isso de forma musical, enquanto movia as mãos e a cabeça. Meu avô sempre dizia que ela dançava muito bem e que foi assim que se conheceram: dançando.
Também aprendi rapidamente que as castanholas não tinham sido uma opção para minha avó porque ela se casou, teve um filho e dedicou sua vida a isso. E lembro-me do ressentimento que isso me causou.
Minha irmã e eu sempre dizíamos uma à outra como é importante ter uma paixão, um hobby, uma ocupação: algo que seja só seu, que ninguém possa tirar de você, que possa fazer você se sentir bem mesmo quando estiver sozinha, velha, no meio de uma ilha deserta.
Logo após a morte da minha avó, eu soube que seu espírito dançante havia se instalado no meu corpo. Foi isso que eu herdei. Eu dançava quando criança e sempre estive ligada ao movimento, mas foi naquele momento que me vi dançando com uma certeza e confiança que nunca tinha tido antes… era ela.
Por volta dessa época, também descobri que, quando era muito jovem, minha avó e sua irmã participaram de uma competição de Fostro (como chamavam o “Foxtrot” na cidade delas). Minha avó dançou com um rapaz (vamos chamá-lo de X), escondendo a identidade dele porque era muito jovem para participar, e sua irmã dançou com o homem que mais tarde se tornaria meu avô (eles não se conheciam na época). Minha avó e X venceram. Mais tarde, meu avô e minha avó se conheceram formalmente enquanto dançavam, como ele dizia, mas ele nunca soube que tinha sido ela quem havia vencido. Então, de vez em quando, ele se lembrava daquela competição e comentava indignado (um mau perdedor, sem dúvida) que o casal vencedor não merecia. Minha avó (com a ajuda da irmã) guardou muito bem seu segredo, até que contou para a primeira neta.
Imagino-a rindo por dentro toda vez que o assunto surgia, lembrando-se da adrenalina que deve ter sentido naquela competição. Mas, mais provavelmente, o que ela sentia era um enorme terror de que alguém a traísse e a verdade viesse à tona. Havia adrenalina. Do que tenho certeza é que, para ela, valeu a pena.
Então eu percebi: a vida da minha avó não se resumia a sacrificar um sonho para cumprir um dever patriarcal (que também poderia ter sido seu próprio desejo… um deles). Havia também travessuras, deslizes verbais, estratégias para poder, pelo menos por um tempo, ser e fazer o que ela não podia evitar. Porque eu sei que, quando se ama dançar, dançar não é uma escolha, é quem você é.
E havia outras mulheres também, que conspiraram para ajudá-la. É assim que deve ter sido, e é, a vida de muitas mulheres. Porque a história das mulheres está cheia de opressão, mas também está cheia de rebelião e fuga. E as relações entre mulheres que o patriarcado adora retratar como competitivas e odiosas também estão cheias de solidariedade, escuta, apoio e incentivo.
(Eu também tenho histórias como essas do outro lado da minha família, mas esse é um assunto para outro espetáculo)
É daí que vêm as perguntas que deram origem ao formato: você já se perguntou sobre os desejos das mulheres da sua família? Elas conseguiram realizá-los? Quantas coisas foram forçadas a fazer pelo patriarcado, pelos maridos, pelos pais, pelas próprias mentes? Elas se rebelaram, se submeteram, fizeram o que queriam em silêncio ou gritaram aos quatro ventos? O que elas dizem, sobre o que mantém silêncio? O que elas deixaram para você? O que está dentro de você, quer você queira ou não? De onde vêm seus próprios desejos?
E a necessidade de encenar essas outras perspectivas sobre nossos ancestrais, esses outros lados de nossos relacionamentos.
Em relação à obra de García Márquez, acredito que, para mim, ela é uma associação inseparável de ancestrais e árvore genealógica. Primeiro, porque deve ser o livro mais lido e discutido entre minha própria família. E, segundo, porque sinto sinceramente que, na América Latina, o realismo mágico é simplesmente realismo. Histórias de segredos bem guardados, sonhos premonitórios e epidemias de esquecimento abundam. Meus irmãos e eu sabemos que nosso pai voltou várias vezes na forma de uma borboleta (para seu desespero, porque ele certamente teria preferido ser um cavalo ou um tigre) e não questionamos se a Terra é redonda ou não por causa disso.
Então, uma semente. Um primeiro broto (a primeira apresentação). Depois, fui viajar, a pandemia chegou e me vi morando em Barcelona. Em Buenos Aires, minha amiga Vale Stilman continuou com o Buena Impro e, depois de um tempo, tirou “Cien años de…” de uma gaveta e começou a dirigi-lo lá. Com as contribuições da versão dela, eu, por minha vez, retomei o formato para me aprofundar nele. E assim, surgiram dois ramos. Portanto, é uma peça, mas também é uma árvore. Ambas as versões têm muito em comum, mas cada uma tem sua própria busca, encontrando sua própria identidade enquanto, simultaneamente, se misturam, inspirando-se mutuamente.
Porque, assim como as histórias que simplificam as vidas de nossas ancestrais e as reduzem a serem ou “vítimas” ou “rebeldes”, existe também a narrativa patriarcal sobre a criação: a ideia do ser que é um gênio solitário que inventa tudo sozinho em seu quarto e que deve ser louvado como um deus. Essa narrativa também deve morrer para dar lugar a uma ideia mais diversificada e multifacetada da criação, na qual contribuições e sensibilidades circulam livremente. Isso não significa que não haverá papéis. Mas ninguém tem sucesso só, muito menos na arte.
As árvores crescem ao se espalharem.
E a estrutura?
O público fornece o tema da performance (“Cien años de…”) e, em seguida, as improvisadoras escolhem aleatoriamente uma moldura que representa o papel que desempenharão (tia, avó). Toda a performance acontece em um único local: um cômodo da casa, montado especificamente para a ocasião. Alguns elementos se repetem: uma poltrona ou peça semelhante, uma mesa onde as molduras são colocadas. A materialidade dos elementos é importante para brincar com a fisicalidade e criar imagens. Às vezes, também adicionamos pequenos objetos e acessórios para realçar as personagens.
As atrizes estão no palco quando o público entra, e o espetáculo começa com uma peça musical/de movimento na qual a música cria uma canção, culminando em uma fotografia das mulheres da família. Seguem-se cenas de duplas e trios nas quais as relações são reveladas, e há uma segunda peça musical/de movimento correspondente a uma cena onírica a partir da qual o desfecho começa a se desenrolar.
No final, a fotografia de família reaparece, podendo sofrer alguma modificação sutil dependendo do que aconteceu ao longo da peça. As árvores florescem, permanecendo em pé e movendo-se.
Blackout. Aplausos.
“Ainda há sementes a serem colhidas”, Ursula também nos diz.
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IMPROLECTORA
IMPROVISAÇÃO, CRIATIVIDADE E BEM-ESTAR HUMANO
Por Pamela Iturra
Você já ouviu falar que a improv “desenvolve habilidades sociais”, “aumenta a confiança” ou “muda a sua vida”? Até que ponto todos esses benefícios mágicos da nossa amada disciplina são verdadeiros? Como é que a improv impacta tanto as pessoas e por que é tão amplamente praticada em nível amador?
Título original: “Improv to Improve: The Impact of Improvisational Theater on Creativity, Acceptance, and Psychological Well-Being” (“Improv para Aperfeiçoar: O Impacto do Teatro de Improviso na Criatividade, Aceitação e Bem-Estar Psicológico”)
Autores: Diana Schwenke, Maja Dshemuchadseb, Lisa Rasehorn, Dominik Klarhölter e Stefan Scherbaum.
Ano: 2021
Texto em contexto
Este artigo científico foi publicado no Journal of Creativity in Mental Health (Jornal da Criatividade em Saúde Mental) por um grupo de pessoas pesquisadoras alemãs interessadas na popularidade que a improv ganhou nos últimos anos. As autorias destacam que a característica central da improv é que ela se sustenta em uma série de princípios (sim, e…, erros são um presente) baseados na criatividade e na cooperação. Como o exercício artístico da improv fortalece várias habilidades, ela tem sido utilizada com fins aplicados na educação, saúde, negócios e outras áreas de desenvolvimento (improv aplicada). As autorias estão interessadas em explorar as conexões entre a improv e a psicologia.
A proposta e sua contribuição
Especificamente, neste estudo, as autorias buscaram testar a influência positiva de um espetáculo de improvisação teatral na criatividade, aceitação e bem-estar psicológico das pessoas. As autorias indicam que, embora a comunidade de pessoas improvisadoras reconheça benefícios colaterais na prática dessa disciplina, não há evidências científicas metodologicamente confiáveis que comprovem essa contribuição. Portanto, elas conduziram um estudo experimental com o objetivo de testar três hipóteses:
1. A improv melhora a criatividade
2. A improv melhora os níveis de aceitação, ou seja, a atenção plena e a tolerância à incerteza.
3. A improv melhora os níveis auto-relatados de autoestima, autoeficácia e resiliência.
Para testar suas hipóteses, o grupo de pesquisa recrutou 58 participantes de forma voluntária, que responderam a seis testes para cada uma das variáveis mencionadas (medindo seis variáveis: criatividade, atenção plena, tolerância à incerteza, autoestima, autoeficácia e resiliência). As pessoas participantes tinham entre 20 e 40 anos e não possuíam experiência prévia em improv. Em seguida, 30 das participantes participaram de um programa de improv de seis meses, enquanto as outras 28 continuaram com suas vidas normais (grupo de controle). O programa consistiu em sessões semanais de duas horas, nas quais, juntamente com duas pessoas facilitadoras, participaram de jogos colaborativos clássicos, aprendendo exercícios e técnicas de improvisação teatral. Após seis meses, os testes foram aplicados novamente a todas as pessoas participantes, e os resultados do grupo que recebeu a intervenção foram comparados com os do grupo de controle por meio de uma análise de variância (ANOVA).
Os resultados do estudo relativos à criatividade mostram que o grupo que participou do programa de improv aumentou sua criatividade produtiva verbal em comparação com o grupo de controle, o que é consistente com publicações anteriores. Ou seja, “a improv pode nos ajudar a pensar de maneiras mais diversificadas ou até mesmo a nos desligarmos de padrões de comportamento arraigados”. Em relação à variável aceitação, os dados não mostraram diferença entre o grupo de teste e o grupo de controle; as autorias sugerem que o que se entende por aceitação em nível psicológico provavelmente difere da conotação que as pessoas improvisadoras lhe atribuem: “uma análise detalhada revela que a atitude de aceitação na improv pode estar mais diretamente ligada ao comportamento e à ação, e menos a uma consciência e percepção sem julgamento”. Quanto à última dimensão, o bem-estar psicológico, observou-se um aumento nas dimensões de autoestima e autoeficácia nas pessoas que fizeram improv durante seis semanas, mas não foram observadas diferenças em relação à resiliência. Em resumo, o estudo confirma que participar de um grupo de improv uma vez por semana durante apenas um mês e meio pode melhorar os níveis de criatividade, autoestima e autoeficácia percebida. O que aconteceria em um estudo de maior porte?
Uma visão pessoal
Acho este um texto muito interessante para quem oferece workshops de improv aplicada ou sessões de bem-estar em empresas e instituições com base em jogos de improvisação. É também um texto muito interessante para pessoas dedicadas à pesquisa que desejam compreender como a improv pode ser estudada cientificamente. Adorei que as autorias tenham encerrado seu artigo convidando a comunidade a desenvolver novos estudos para ampliar suas descobertas e continuar descobrindo, a partir da psicologia, o impacto que a improv tem nos processos emocionais e cognitivos.
Referência:
Schwenke, D., Dshemuchadseb, M., Rasehorn, L., Klarhölterc, D. e Scherbaum, S. (2021). Improv to Improve: The Impact of Improvisational Theater on Creativity, Acceptance, and Psychological Well-Being. Journal of Creativity and Mental Health, 16 (1), 31 - 48.

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